Médico acusado de acariciar pacientes teria usado abraços e suposta mediunidade para crimes, diz Polícia
Foi preso preventivamente na manhã desta segunda-feira (30), em Taquara, o cardiologista Daniel Pereira Kollet, de 55 anos, acusado de crimes sexuais contra pacientes.
Os atos teriam sido cometidos dentro do próprio consultório, localizado na Rua Guilherme Lahm, região central do município do Vale do Paranhana, onde a prisão ocorreu.
Segundo o delegado Valeriano Garcia Neto, titular da Delegacia de Polícia de Taquara, já passa de 20 o número de mulheres que prestaram depoimento contra Kollet. Uma das vítimas, inclusive, teria 16 anos na época dos acontecimentos.
Os relatos das mulheres mostram a forma como agia o profissional da saúde, que teria se aproveitado da vulnerabilidade das pacientes durante os exames clínicos para cometer os abusos.
Alegou mediunidade para crime sexual
Uma das vítimas relatou à Polícia que costuma fazer exames de check-up anualmente no mês de março, quando retorna da praia. No ano de 2024, então, passou a fazer a bateria de rotina com o cardiologista — amigo de longa data do marido.
Já na primeira consulta, disse que estranhou a “forma carinhosa” como o cardiologista a teria tratado. Em um primeiro momento, considerou que o tratamento seria devido à relação do médico com o esposo.
A mulher relatou ao médico que estava tentando engravidar e que vinha sentindo dores no estômago. Neste momento, alega que Kollet teria passado a apalpar sua barriga e seios. Conta também que teria sentido o médico esfregar o órgão genital enquanto estava sobre a maca.
Ao levantar, a suposta vítima lembra que o cardiologista a abraçou e disse ser médium. A ideia, segundo ele, era transmitir energias positivas com o ato. Teria ocorrido ainda um pedido por parte do profissional de saúde para que ela não contasse para ninguém sobre o que acabava de acontecer, o que ela achou ter relação com o desejo de engravidar.
Em março de 2025, retornou para uma nova sequência de exames. Após os procedimentos de esteira e eletrocardiograma, quando estava sem roupas na parte superior do corpo, conta que o abraço teria se repetido. Desta vez, no entanto, decidiu contar ao marido e à terapeuta, mas optou por não registrar ocorrência por achar que precisaria de vídeos e provas para atestar o crime sexual.
Abusos disfarçados de abraços
Segundo o delegado, o relato de uma outra mulher corrobora a descrição de como o suspeito teria agido para cometer os crimes no consultório. Ela lembra que também lhe foi solicitado que tirasse todas as roupas da cintura para cima e deitasse na maca, e que chegou a questionar se não haveria a possibilidade de cobrir os seios com uma toalha, o que foi negado.
Após a realização do exame, já em pé, mas ainda sem roupa, lembra que ouviu do médico a frase: “Deixa eu te dar um abraço”. Teria sido agarrada pelas costas e tido os seios apalpados, o que levou ao posterior afastamento de Kollet e à saída do consultório.
Um terceiro relato também descreve os abraços e pedidos de sigilo por parte do cardiologista. Esta suposta vítima conta à Polícia que, em abril de 2024, esteve duas vezes no consultório na área central de Taquara para tratar um processo após cirurgia bariátrica e acidente cardiovascular, mas teria sido vítima de abusos.
A segunda ida ao cardiologista teria ocorrido após a mulher sentir dores no peito. Na sequência da realização dos exames, ela conta que o médico a abraçou enquanto vestia apenas roupas íntimas na parte de baixo, e falou que ela “estava bem e não precisava se preocupar”.
A fala teria ocorrido enquanto ele passava a mão em seus ombros, atos que ela descreveu como “maliciosos”. Ao ir embora do consultório, teria voltado a ser abordada pelo médico, que elogiou o abraço e pediu que aquilo fosse um segredo entre eles.
Assustada, saiu rapidamente do consultório e, já no carro, contou a situação à mãe. Desde então, não retornou ao local.

Foto: Policia Civil
Prisão
Conforme o delegado Valeriano, o médico não se manifestou formalmente, mas, ainda no consultório, no momento da prisão, teria admitido que abraçava as pacientes “sob pretexto de demonstrar carinho e também para orientação espiritual”.
Após a prisão preventiva no consultório, o homem passou pelos trâmites legais na delegacia e foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça. O médico é investigado pelos crimes de importunação sexual e posse sexual mediante fraude.
O delegado acredita que outras pessoas possam ter passado por situações semelhantes. O inquérito segue em aberto para apurar se há mais vítimas. “Estão surgindo novas vítimas, mais antigas. Uma delas de 10 anos atrás”, destacou o delegado.
O que diz a defesa
O advogado Rômulo Campana, que faz a defesa de Daniel Pereira Kollet, disse à reportagem de ABCmais que o escritório ainda não teve acesso ao inquérito que originou a prisão. “Em conversa com nosso cliente, este negou integralmente todas as acusações que lhe foram imputadas”, disse Campana.
“Trata-se de médico há quase 30 anos, com conduta ilibada, cuja atuação profissional sempre foi pautada pela ética, responsabilidade e compromisso com a saúde de seus pacientes”, acrescentou o advogado.
