Boreal mostra a evolução da Renault

Modelo traz os avanços de design da marca francesa, com frente futurista
Modelo traz os avanços de design da marca francesa, com frente futurista

O Renault Boreal é um dos herdeiros da ‘‘Renaulution’’. A estratégia lançada por Luca de Meo. O permanentemente inquieto CEO que propõe e realiza estratégias bem-sucedidas nas empresas que comanda. Mas Luca está sempre em busca de novos desafios e, depois de reposicionar a Renault de marca ocupada em produzir muito com baixa lucratividade para uma marca que passou a focar numa escala reduzida de produção de veículos com maior valor agregado. Missão realizada, Luca de Meo deixou a Renault e foi comandar a Kering. O poderoso grupo global francês proprietário de marcas que lucram trilhões como a Gucci, Saint Laurent, Bottega Veneta, Balenciaga e Alexander. Talvez por ser um ‘‘insider’’ da indústria automobilística, Luca pressentiu que o futuro do automóvel é algo bem mais complexo do que colocar algumas gotas do caríssimo ‘‘Saint Laurent’’ no pescoço. Somente a China tem 1,4 bilhão de pescoços. E mulheres chinesas adoram perfumes franceses e belíssimas bolsas da Gucci. Mas o jovem chinês também curte o luxo. Numa síntese capitalista, é mais fácil lucrar com o luxo, que independe da geolocalização, do que com o automóvel, que deve passar pelo ‘‘Estreito de Ormuz’’.
Como diretor mundial de marketing da Fiat de 2002 a 2009, Luca concedeu diversas entrevistas, onde sempre salientava a importância do Brasil para a Fiat.

Este Boreal, assim como o Kardian, tem origem na Renaulution. Como o Kardian, o Boreal utiliza o ótimo motor 1.3 turbo com 163 hp, que tornou-se referência em qualidade construtiva e performance a partir de seu lançamento no mercado europeu em 2018. Dois poderes tecnológicos se uniram e acertaram, porque o 1.3 é, sem dúvida, um dos melhores motores turbo do mundo. Também antecipou a eletrificação chinesa por ter qualidade superior a muitos motores elétricos ‘‘made in China’’.

E por ser como um motor elétrico, totalmente silencioso. No teste de longa duração, por diversas vezes o piloto ‘‘religou’’ o que já estava ligado. Afinal, a mente está condicionada às décadas do ‘‘ronco do motor’’. A potência de 163 hp, junto ao torque ‘‘elástico’’ de 270 Nm, tornam a condução agradável e precisa em trânsito urbano e veloz e consistente em trânsito rodoviário. É fácil chegar aos 180 quilômetros horários no Boreal, que é daqueles veículos que não demonstram a velocidade real. Esta só aparece no pagamento da multa.

O teste teve muitas idas e vindas de Porto Alegre ao litoral gaúcho, com duas incursões à ‘‘Serra’’, pela sinuosa BR-116. O uso rodoviário mais intensivo, a exemplo do que ocorreu com o Kardian, expõe novamente a eficiência da nova plataforma global modular ‘‘RGMP’’, que permite um ‘‘generoso’’ entre-eixos de 2,70 m, que amplia o habitáculo, conforto e o tamanho do porta-malas, que transporta 522 litros. A nova plataforma ‘‘RGMP’’ amplia os limites de segurança na inserção do ‘‘Adas’’, com 24 sistemas voltados à segurança ativa e passiva. No teste, a preocupação do sistema de controle direcional em manter o SUV na linha reta ou em curvas foi segura. Porque qualquer aproximação insegura às marcações laterais de pista induzia o sistema eletrônico, que efetua ‘‘leitura’’ digital das marcações horizontais na pista, a reposicionar o Boreal para a trajetória segura. É essencial tecnologia voltada à segurança ativa, que serve de alerta num país onde as marcações horizontais de pista são negligenciadas.

No Boreal são 24 sistemas de proteção à vida que surgem conforme as circunstâncias do uso do veículo. Por exemplo: frenagem automática de emergência, que detecta obstáculos à frente se o motorista não os detectou. E freia o veículo. O controle de velocidade adaptativo mantém automaticamente uma distância segura ao veículo à frente. Mas, infelizmente, o sistema se mostrou ineficiente na BR-101, onde qualquer ultrapassagem é considerada questão de honra e merece ‘‘vingança’’. Portanto, é difícil manter a condução defensiva e segura com ajuda da tecnologia num trânsito onde as regras de circulação são feitas pelos próprios motoristas ao sabor da improvisação. Por isso, temos mais de 60 mil mortes por ano no trânsito do Brasil. Estão à disposição o sensor de fadiga, alerta de ponto cego, câmera de 360 graus com visão 3D, alerta de saída segura que avisa o passageiro ao deixar o veículo, sensores de estacionamento e seis airbags. Entre outros ‘‘Adas’’.

Há ótimo nível de acabamento no habitáculo, que sintetiza a nítida evolução da Renault, que tantas vezes descuidou neste item. Agora, materializam-se no Boreal os conceitos que Luca de Meo exigiu quando assumiu como CEO da Renault em 2021. Para Luca, a Renault tinha que se apresentar aos olhos do mundo como uma marca com alto nível de sofisticação externa e interna. O design do Boreal é unanimidade ao mostrar que um veículo não precisa ser totalmente arredondado e ‘‘liso’’ como querem os chineses. Cheio de sinuosidades e expressividade, o design do Boreal o define como um dos SUVs mais bonitos do mercado global. E soa original, enquanto os SUVs de uma Zeekr são cópias deslavadas da Porsche. Aliás, está em tempo de os chineses deixarem definitivamente as cópias.

No caso do Boreal, o interior acrescenta bom gosto e refinamento ao que foi visto ‘‘por fora’’. Por exemplo, o painel e as portas trazem materiais macios, sensíveis ao toque. A ótima ergonomia dos bancos dianteiros e o espaço privilegiado para os passageiros do banco traseiro também são pontos positivos. O futurismo sem exageros está no conjunto de telas, que inclui uma tela central multimídia de 10 polegadas com Google integrado e um painel de instrumentos digital personalizável. Ambos com ótima nitidez. São tantos os detalhes que parece que a performance foi esquecida. Mas o Boreal não pode ser julgado como superior somente em um quesito. É uma soma de qualidades e acertos, com algum desacerto eventual ou idiossincrasia francesa. Por exemplo, ao colocar o controle do som em tecla minúscula em haste no lado direito do volante. No teste, ouvi o silêncio. Porque não tive a paciência para manusear a teclinha misteriosa. Pecado a ser desculpado diante da qualidade do ‘‘todo’’.