Rolante encaminha ação contra a Corsan pela qualidade da água
Gosto ruim, cheiro e coloração diferente. Todas essas características foram sentidas durante o consumo de água, parcial ou totalmente, nos últimos dias em cidades da região. No Vale do Paranhana, Rolante e Taquara foram os municípios a alegarem o problema, o primeiro destes, inclusive, ingressou com ação civil pública para a Corsan resolver estas questões. No Vale do Sinos, o problema apareceu em Sapiranga e Estância Velha.

Foto: Divulgação
A situação mais avançada em termos de discussão se encontra em Rolante. Na cidade, o prefeito Alceu Trevizani anunciou, através de suas redes sociais, um ingresso judicial para que a Corsan restabeleça a qualidade da água em até 48 horas; a ação teria sido protocolada na segunda-feira (30).
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“Problema começou há umas três semanas, gosto de barro, uma água podre. Alguns lugares da cidade, até água totalmente escura”, relata Gilson Matte, 34 anos, morador do bairro Rolantinho. “Deu um surto de virose, que pelo que nos passaram no hospital, foi por conta da água. Levamos nossos filhos no hospital; de seis, quatro pegamos virose e (também) eu. Lugar lotado de crianças. A água com com gosto e cheiro que não tem condições. Pode ferver, congelar, não tem como”, completa a esposa, Tais Lourenço, 34.
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A Companhia, no entanto, alega que o cenário é mais complexo e que o que compete à Corsan, já foi e está sendo feito. “Identificamos que o problema de Rolante era o descarte irregular de algumas pisciculturas muito próximo a nossa captação. Aplicamos todo o protocolo, só que como a carga era muito grande e algo que não é possível de ser tratado na ETA (Estação de Tratamento de Água), isso precisa ser tratado na raiz, não pode despejar o resíduo das suas atividades em qualquer lugar”, explica Cintia Kovaski, gerente de Relações Institucionais da Corsan. Segundo ela, é de responsabilidade dos órgãos públicos articularem essa mudança junto aos produtores locais, uma vez que a companhia “não tem poder de polícia fiscalizadora” e nem “atribuição para tratar com essa atividade”.
A prefeitura de Rolante alega que o encaminhamento da situação ao Poder Judiciário se deu pela lentidão em resolver as pendências, “com o objetivo de garantir uma resposta mais rápida e eficaz”, a fim de assegurar “à população o acesso à água potável e de qualidade”.
A administração municipal não se posicionou sobre a menção da Corsan sobre ser sua a responsabilidade e de demais equipes públicas, como a Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram) e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), quanto ao descarte irregular de piscicultores da cidade em afluentes próximos ao manancial.
Outras cidades
Ainda no Paranhana, Taquara enfrentou certa inconstância no abastecimento e uma água com coloração escura depois das fortes chuvas que atingiram a região. “Notei esse gosto (dia 24) ruim na hora de fazer minha higiene bucal, também um pouco de cheiro. Quem deu uma sofrida com essa água foram nossas cadelinhas; quando percebi 7 ou 8 vômitos delas no pátio me assustei”, conta Luis Bolfoni, 42 anos, morador do bairro Recreio.
Já Roni Ferraz, 37, do bairro Centro, informou, no mesmo dia, que chegou a comprar um novo filtro, achando que seu aparelho havia estragado em função do gosto da água.
Em defesa, a Corsan justifica esse “gosto” na água ao aumento no número de algas nos mananciais, mas que o devido protocolo já foi executado e solucionou o caso.
Nas cidades do Sinos, o problema mais “simples” ocorreu em Sapiranga. Depois do conserto de um rompimento de rede, moradores de bairros como Amaral Ribeiro notaram instabilidade no serviço. “Notei a alteração no gosto da água (no dia 24) no momento em que fui escovar os dentes. Visualmente ela parece normal, também não notei nenhum cheiro estranho. No entanto, o gosto está realmente muito ruim”, descreve Daiana Steyer, 41. Mais uma vez, a Corsan indica a incidência das algas como causador dos problemas, que como no outro município, já estariam resolvidos.
Por fim, Estância Velha, que organiza um momento para esclarecimento de dúvidas junto à comunidade nesta quarta-feira (1º), encara o mesmo cenário de odor e sabores junto à água. “Tem dias que ela tem gosto e cheiro forte. Por exemplo, assim que enchi a vasilha de água (dia 24), senti de imediato um cheiro forte de produto. Vários vizinhos e pessoas de outros bairros têm feito relatos da situação da água”, relata Leila Ermel, moradora do bairro Centro, 52 anos.
Jonathan Kauer, 34, morador no bairro União, é outro a vivenciar esta cena repetidas vezes. “(Há) cerca de um mês, essa questão do cheiro e do gosto da água durou cerca de uma semana, mas se resolveu; agora o problema retornou (dia 24). Situação bem incômoda, porque acabamos não conseguindo beber água”.
“Não temos conhecimento destas reclamações. Temos um controle muito apurado dos questionamentos, do recorte que o consumidor faz através dos nossos canais digitais e não temos conhecimento de problemas em relação a qualidade de água ou do abastecimento no município”, alega Cintia, em relação a situação de Estância Velha. Em síntese, ela afirma sobre a atuação da companhia nas três últimas cidades mencionadas: “As questões sentidas em Sapiranga e Estância Velha não estão mais aparentes; Taquara também não”.
Reunião com a Agesan
Das 9 às 12 horas, de quarta-feira (1º), a sede da Corsan em Estância Velha, localizada na Rua Farroupilha, 453, terá representantes da Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento do Rio Grande do Sul (Agesan) para esclarecer dúvidas relacionadas aos serviços prestados pela Corsan e sua qualidade, bem como possibilitar a abertura de processos administrativos mediante alguma irregularidade. À tarde, o encontro ocorrerá no prédio da prefeitura, na Rua Anita Garibaldi, 299, das 13 às 16 horas.
A Agesan tem como sua principal função regular, fiscalizar e monitorar os serviços de saneamento básico, sendo estes o abastecimento de água e esgotamento sanitário, em cada um de seus municípios conveniados. Além de Estância Velha, Taquara, Sapiranga e Rolante também integram o quadro de cidades vinculadas.
O encontro marca a primeira reunião neste ano. A iniciativa, lançada em 2025, atendeu o anseio da comunidade em manifestar a insatisfação dos estancienses quanto ao abastecimento de água e questões envolvendo o sistema de esgoto. Na ocasião, foram realizadas centenas de atendimento, além de processos movidos pela comunidade contra a companhia.
