VÍDEO: “Não é simplesmente um cabo pendurado, são vidas que estão em risco”, diz motociclista que se acidentou em fios soltos

A vítima que sofreu lesões graves após se envolver em um acidente com fios soltos no bairro Hamburgo Velho, em Novo Hamburgo, recebeu alta hospitalar e inicia o processo de recuperação em casa, no bairro Canudos. Ainda com dores e limitações, o motociclista Ricardo de Oliveira, 41 anos, conversou com a reportagem de ABCmais nesta quinta-feira (26) e relatou o susto, as consequências da queda e a indignação com a situação.

Oliveira voltava do bairro Guarani, onde tinha ido à casa de um cliente, e seguia em direção à escola da filha quando sofreu o acidente, no final da manhã de quarta-feira (25), na Avenida General Daltro Filho, próximo à esquina com a Rua Engenheiro Jorge Schury.

“Eu fui fazer a curva e me deparei com um cabo no meio da via. Não deu tempo de desviar, não deu tempo de nada. Foi muito rápido. Acho que acabou enroscando na roda da frente da moto e me jogou na contramão”, relembra.

Após a queda, Oliveira ainda conseguiu se levantar e se sentar no cordão da calçada, enquanto tentava entender o que havia acontecido. “No momento a gente não sabe o que aconteceu. Eu só percebi que o meu punho estava fora do lugar. Sentia muita dor”, pontua.

Enquanto recebia ajuda de moradores do entorno, eles presenciaram outro acidente no mesmo lugar. “Questão de um, dois minutos, eu vi uma moça, também de moto, cair no mesmo cabo. O fio enroscou na moto e derrubou ela também”, afirma.

O motociclista sofreu diversas lesões. “Eu machuquei os dois joelhos, o quadril e o braço esquerdo. O braço direito quebrou o punho em dois lugares. Provavelmente vou ter que fazer cirurgia”, conta. A avaliação definitiva está prevista para a próxima terça-feira (31).

 

“Pessoas perdem a vida por causa disso”

 

Autônomo na área da construção civil, Oliveira destaca o impacto direto na rotina. “Eu dependo do meu corpo para trabalhar. Vou ter que ficar pelo menos uns 60 dias sem trabalhar”, lamenta.

Apesar da gravidade do acidente, ele ressalta o sentimento de alívio. “Primeiro é agradecer a Deus que não foi nada mais grave. A gente vê notícias de pessoas que perdem a vida por causa disso [fios soltos]”, acrescenta.

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Ao mesmo tempo, a situação também gera revolta. “Fica aquele sentimento de impotência, um pouco de indignação, um pouco de desânimo, mas feliz também porque estou bem, dentro do possível”, sublinha.

O motociclista cobra responsabilidade às empresas responsáveis pela situação e até mesmo da Prefeitura, no que diz respeito à fiscalização deste problema crônico no município. “O mínimo que se espera é que assumam a responsabilidade, hoje só quebrei o braço, mas pessoas morrem por causa disso [fios soltos]. Não é simplesmente um cabo pendurado, são vidas que estão em risco. São pais ou mães que, daqui a pouco, não voltam à família”, sublinha.

 

“Muita dor no corpo”

Minutos após o acidente envolvendo Ricardo de Oliveira, uma segunda motociclista também caiu ao se enroscar no mesmo cabo solto. Sheila Maria de Moraes, 43, teve ferimentos menos graves, mas também foi encaminhada ao hospital para avaliação e já recebeu alta. “Felizmente, não tive nenhuma fratura, mas estou com muita dor no corpo pela queda no asfalto. Além disso, minha moto ficou destruída”, explica.

Assim como Oliveira, Sheila também pilotava uma Honda Biz e, segundo testemunhas, ela voou ao ser “laçada” pelo fio solto. Moradora em frente ao local do acidente, Norelys Sandoval, 41, ajudou a socorrer as vítimas e descreveu a situação como caótica. Segundo ela, o cabo que provocou os acidentes era mais espesso e estava caído no meio da pista.

“Não deu tempo de tirar o cabo do meio da pista. Estávamos preocupados em prestar socorro ao primeiro motociclista quando a outra veio e também se enrolou nesse mesmo fio. Ela foi arremessada da moto e caiu de costas no asfalto”, relata.

Ainda na tarde de quarta-feira, equipes de empresas de internet estiveram no local para organizar a fiação, conforme os moradores. No entanto, a forma como o serviço foi finalizado também gerou reclamações. Após a conclusão da organização da massaroca de fios, os cabos cortados foram deixados pelas calçadas.

“Recolhemos alguns fios e enrolamos outros para que ficassem organizados, e não no meio das calçadas. Inclusive, um dos fios, eu peguei para fazer um varal de roupa aqui em casa”, destaca Norelys.

  

A CPFL RGE, responsável pelos postes, informou ainda na quarta-feira (25) que notificaria as empresas de internet e telefonia que utilizam os postes para regularizem a situação dos cabos no município, especialmente no trecho onde ocorreram os acidentes.

Já a Prefeitura de Novo Hamburgo reconhece que compete ao poder público fiscalizar esse tipo de situação e garantiu que irá tomar providências. “A Diretoria de Pavimentação e Serviços Urbanos está ciente do fato e notificará a empresa responsável pelo recolhimento”, diz nota.