“Braço aéreo do crime”: Droneiros terceirizavam serviços para facções; arma que matou Nego Jackson pode ter sido entregue pelo grupo
Liderança criminosa ligada ao tráfico de drogas e entorpecentes, Jackson Peixoto Rodrigues, vulgo “Nego Jackson”, levou sete tiros dentro da cela onde estava preso no Complexo Prisional de Canoas (Pecan), em novembro de 2024.
Dias depois, o Grupo de Ações Especiais da Polícia Penal prendeu em flagrante um jovem que usava um drone para lançar materiais dentro da Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan).

Foto: Paulo Pires/GES
Flagrado em um matagal ao lado do presídio com 130 gramas de cocaína, o “droneiro”, como acabou batizado pela polícia na época, tornou-se estopim para uma apuração que culminou na batizada Operação Ícaro.
A ofensiva lançada na manhã desta terça-feira (31) desarticulou um grupo de criminosos responsável por prestar serviços a facções criminosas por meio de drones capazes de ultrapassar muros e cercas de penitenciárias.
A consequente investigação conduzida pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas resultou na identificação de 12 criminosos que se valiam de drones para auxiliar os criminosos confinados.
Foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e nove de busca e apreensão em Canoas, Charqueadas, Eldorado do Sul, Gravataí, Montenegro, Novo Hamburgo e São Leopoldo. Quatro foram presos.
Grupo prestava serviços para facções
Segundo a delegada Luciane Bertoletti, responsável pelo inquérito, o grupo agia de modo autônomo, às vezes prestando serviço a uma ou outra organização. Porém, durante o período investigado, atuava para a facção do Vale dos Sinos.
“Eram o braço aéreo do crime”, classifica. “Introduziam materiais ilícitos não apenas aqui em Canoas, mas igualmente em penitenciárias de Charqueadas, Bento Gonçalves e Montenegro”, aponta.
Preocupação
A apuração apontou que os “droneiros” mantinham viva a comunicação de apenados considerados lideranças com o mundo exterior, encaminhando não apenas materiais, mas mensagens de fora para dentro das penitenciárias.
“Sabemos que eram cobrados altos valores pelo serviço prestado”, explica Luciane. “Os criminosos utilizavam drones de altíssima tecnologia, silenciosos e difíceis de serem identificados pela Polícia Penal.”
Diretor da Polícia Civil em Canoas, o delegado Cristiano Reschke afirma que a utilização de drones representa um novo desafio para a Polícia Civil, já que a tecnologia acabou integrada às organizações.
“Sabemos que é histórico o controle que o criminoso, mesmo confinado em uma cela, busca manter sobre o mundo exterior. Antes, o aparelho celular era a maior ameaça, mas a realidade hoje é de que há facções se valendo de drones para garantir a comunicação”, reforça.
Suspeita
O inquérito que apurou o assassinato de Jackson Peixoto Rodrigues no Complexo Prisional de Canoas concluiu que a pistola 9 milímetros que entrou na penitenciária acabou sendo entregue por um drone.
A suspeita da Polícia Civil é que este mesmo grupo identificado tenha sido o responsável por entregar a arma que na época levou à morte do traficante em uma cela da prisão.
“A gente não pode afirmar, mas é claro que nossa investigação identificou criminosos que terceirizavam o serviço com drones, logo podem ter sido os responsáveis por coordenar a entrega da pistola em 2024”, observa Luciane.
Entenda a morte na Pecan
O assassinato cometido, entre os muros da Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan 3), em 2024, escancarou uma das maiores ameaças surgidas à segurança pública no Estado: a facção conhecida como Família do Sul (FMS).
A organização nasceu da união de criminosos oriundos das zonas Sul e Norte de Porto Alegre, visando o domínio de pontos de tráfico na capital, por meio do enfrentamento com traficantes do bairro Bom Jesus e do Vale do Sinos.
Os criminosos criaram até um “estatuto” contendo regras bem definidas da organização, com uma espécie de conselho deliberativo que decide inclusive quem vive e quem deve morrer, conforme apontamento da Polícia Civil.
Na época em que surgiu, a organização tinha como líder Jackson Peixoto Rodrigues, o “Nego Jackson”, antes conhecido líder da facção Anti-Bala e já tido como um dos criminosos mais procurados do Rio Grande do Sul.
Jackson acabou capturado ao tentar passar um documento falso, enquanto viajava pelo Paraguai, em 2017. Investigado pelo envolvimento em pelo menos 24 assassinatos, ele foi levado para um presídio federal em Porto Velho, em Rondônia.
Foi transferido, sob forte esquema de segurança, em 2020, para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) e, posteriormente, encaminhado para Canoas em novembro de 2024, quando acabou sendo assassinado.
Conforme a Polícia Civil, os inimigos queriam Jackson morto há anos. Isso porque, embora preso, ele continuava dando as ordens à frente da Família do Sul, até mesmo em uma penitenciária federal.
A apuração do Departamento de Homicídios de Canoas na época identificou os dois suspeitos da morte de Jackson como Rafael Telles da Silva, conhecido como “Sapo”, e Luis Felipe de Jesus Brum.
Não à toa, os dois são criminosos conhecidos por estarem ligados à facção Bala na Cara (BNC), principal rival da Família do Sul pelo controle de pontos de traficância de drogas e entorpecentes em Porto Alegre.
