Os desafios das eleições na era da Inteligência Artificial; entenda regras e cuidados na hora de compartilhar
As eleições municipais de 2024 apresentaram ao eleitorado brasileiro uma novidade: o uso da inteligência artificial (IA) nas campanhas políticas. Em 2026, com a ferramenta já consolidada no mercado da tecnologia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou novas regras para garantir que o instrumento seja um aliado da democracia, e não uma ameaça.

Mais de 155 milhões de eleitores estão aptos a votar para escolher representantes no Congresso Nacional, Assembleias Legislativas, governos estaduais e o próximo presidente da República. A principal regra imposta pelo TSE é a identificação de qualquer conteúdo criado ou alterado por IA. O aviso precisa ser visível e de fácil compreensão.
A ferramenta não poderá recomendar o voto. Provedores que oferecem sistemas de IA estão proibidos de ranquear ou favorecer candidatos e partidos, evitando que algoritmos interfiram na decisão de cada cidadão.
Denúncias
Visando dar maior integridade ao processo eleitoral, serão criados canais específicos para que candidatos e partidos denunciem irregularidades de forma ágil. O uso da IA não será permitido em qualquer circunstância a partir de 72 horas antes das eleições.
Ou seja, três dias antes do 4 de outubro a ferramenta estará proibida na campanha. A regra é válida também para o dia seguinte ao pleito.
Os influenciadores digitais também serão afetados pelo regramento do TSE, já que não será possível contratar pessoas físicas ou jurídicas para publicar conteúdo de cunho político-eleitoral em seus perfis ou canais em troca de dinheiro ou qualquer vantagem econômica, mesmo que a negociação envolva mecanismos de premiação ou ranking.
Exposição
Para o mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e pesquisador do World Values Survey na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fábio Hoffmann, o uso da IA deixa os eleitores expostos a fraudes. “Os principais perigos envolvem a criação cada vez mais real de deepfakes (manipulação digital ), que distorcem falas e comportamentos dos candidatos, o emprego do microtargeting psicológico que explora as emoções e vulnerabilidades do eleitor.”
Hoffmann aponta também o risco para o uso de “robôs” que geram engajamento e provocam consensos artificiais.” É preciso ficar atento, tanto eleitores quanto candidatos, pois o estrago uma vez feito, é difícil de ser reparado.”
Influência no pleito
Questionado se o uso da IA pode influenciar o resultado das eleições, Hoffmann esclarece que pesquisas indicam que a inteligência artificial persuasiva tem um poder de influência significativo. “Chatbots podem alterar atitudes políticas entre os eleitores, com um efeito até quatro vezes maior do que a propaganda política tradicional, especialmente porque essas ferramentas convencem com uma alta densidade de informações factuais, ainda que muitas vezes imprecisas ou falsas”, reforça.
O especialista reitera que, apesar da ferramenta criar, as redes sociais é que são responsáveis por disseminar. “Então, o casamento da IA com as redes sociais criou uma combinação perigosa, uma espécie de míssil balístico eleitoral, que tem um alto poder de disseminação de conteúdo com estragos instantâneos e, em muitos casos, irreversíveis.”
Ainda assim, Hoffmann afirma que a democracia brasileira tem mostrado um amadurecimento importante perante os desafios impostos pelas redes sociais e o emprego da IA. “A minha tese de doutoramento aborda a confiança nas eleições e processos eleitorais entre os brasileiros, e um dos principais resultados é que o emprego da tecnologia e o crescente uso das redes sociais vêm impactando negativamente a confiança dos brasileiros nas eleições, enquanto que a imprensa tradicional (jornal, televisão e rádio) ainda é o veículo no qual as pessoas acreditam ser mais confiável”, completa.
Eleitor deve estar atento às falhas técnicas nos materiais digitais
Para identificar os conteúdos falsos produzidos por Inteligência Artificial durante campanhas eleitorais, o eleitor deve observar as prováveis falhas técnicas nos materiais.
“Como a sincronia labial imperfeita, piscares de olhos irregulares, textura da pele, que geralmente aparece sem as rugas, e demais detalhes. Nesse sentido, a tecnologia de IA anda a passos largos, mas ainda é possível identificar traços que confirmam o seu uso”, explica o especialista em Ciência Política.
Hoffmann salienta que por viver em um país com alto índice de analfabetismo funcional, onde os brasileiros de várias idades caem seguidamente em golpes virtuais, o uso da IA é um processo de aprendizado.
“O eleitor precisará se familiarizar com a recepção e o uso da IA, para aí sim entender sua lógica de funcionamento. Acredito que cada eleição traga pequenos ganhos de aprendizado, é um processo educacional no qual todos nós estamos inseridos e temos um papel a cumprir”, finaliza o pesquisador.
